quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Presente e Futuro do Livro

Já há alguns anos o assunto é pauta corrente no jornalismo, na academia e nos diversos fóruns de discussão mundo afora. Sempre que que o tema é o mercado editorial de livros ou o hábito da leitura, a pergunta que se impõe é: Qual será o futuro do livro?

capa da revista época em out/2009

O Mercado

Este ano, com o lançamento do Ipad, o tablet da Apple, somando-se a outros aparelhos do mercado, como o Kindle, da Amazon (lançado em 2009) ficou nítido que a indústria eletrônica não medirá esforços até conseguir criar uma plataforma que agrade tanto aos usuários que ainda possuem a  "cultura do papel" quanto aos que já cresceram em meio a telas de LCD e Smartphones.


Ipad ou Kindle? Qual vingará?


Enquanto isso, o mercado editorial ainda "espera para ver". Nenhuma editora tradicional brasileira, por exemplo, tomou atitudes severas que sugiram mudança de foco em suas atividades. Não há grandes investimentos em e-books. O objeto principal do mercado de livros continua sendo o livro em papel. As grandes editoras temem cometer os mesmos erros do mercado fonográfico, que foi totalmente transformado com o advento da Internet. Ainda são muito tímidas as tentativas de inovação nessa área.

Este comportamento das editoras, no caso braslieiro, encontra respaldo num fato curioso, que reflete o quanto o futuro do livro navega em águas incertas. Segundo dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL) e da Câmara Brasileira do Livro (CBL), a última década apresentou um crescimento bastante significativo no mercado editorial. E ainda não há indícios de um declínio próximo. 

PRODUÇÃO
(1º edição e reedição)
VENDAS
Ano Títulos Editados Exemplares Produzidos Exemplares Vendidos Faturamento
(R$)
1990 22.479 239.392.000 212.206.449 901.503.687
1991 28.450 303.492.000 289.957.634 871.640.216
1992 27.561 189.892.128 159.678.277 803.271.282
1993 33.509 222.522.318 277.619.986 930.959.670
1994 38.253 245.986.312 267.004.691 1.261.373.858
1995 40.503 330.834.320 374.626.262 1.857.377.029
1996 43.315 376.747.137 389.151.085 1.896.211.487
1997 51.460 381.870.374 348.152.034 1.845.467.967
1998 49.746 369.186.474 410.334.641 2.083.338.907
1999 43.697 295.442.356 289.679.546 1.817.826.339
2000 45.111 329.519.650 334.235.160 2.060.386.759
2001 40.900 331.100.000 299.400.000 2.267.000.000
2002 39.800 338.700.000 320.600.000 2.181.000.000
2003 35.590 299.400.000 255.830.000 2.363.580.000
2004 34.858 320.094.027 288.675.136 2.477.031.850
2005 41.528 306.463.687 270.386.729 2.572.534.074
2006 46.026 320.636.824 310.374.033 2.880.450.427
2007 45.092 351.396.288 329.197.305 3.013.413.693
2008 51.129 340.274.195 333.264.519 3.305.957.488
2009 52.509 386.367.136 370.938.509 3.376.240.854
Fonte: Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL) e da Câmara Brasileira do Livro (CBL)



A livraria da Travessa ampliou sua rede




Da mesma forma, cresce a passos largos o comércio eletrônico. A nível mundial, basta citar o caso da Amazon, a maior livraria do mundo, que nunca teve uma existência física. A Amazon, aliás, anunciou este ano que, pela primeira vez, a venda de e-books para a sua plataforma de leitura, o Kindle, superou a venda de livros em papel. Aqui no Brasil, este número ainda está longe de ser revertido. Apesar do crescimento vertiginoso do comércio eletrônico de livros, ele ainda não ultrapassou o comércio convencional. Mas parece ser apenas questão de tempo. Ninguém contesta que a tendência é isto acontecer, só não se sabe quanto tempo levará. Enquanto isso, dados estranhos e impressionantes aparecem, confundindo ainda mais qualquer análise. A Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), por exemplo, divulgou uma pesquisa em agosto, informando que a venda porta-a-porta foi superior no último ano às vendas pela internet. O motivo, segunda a associação, seria grandes investimentos realizados nesta modalidade de venda, sobretudo nas regiões norte e nordeste. Empresas de cosméticos que utilizam largamente desta modalidade de venda também passaram a incluir livros nos seus catálogos, que são cada vez mais diversificados.
Um ponto importante a ressaltar, sobre o comércio eletrônico, é a sua capacidade de operação com a capilaridade do consumo de livros. Enquanto as livrarias físicas tem, naturalmente, limitações de espaço, o mesmo não ocorre com as lojas eletrônicas. Assim, é no meio eletrônico que se realiza o fenômeno conhecido como "cauda longa",  a tendência à diversificação cada vez maior do consumo, possibilitando que as pessoas tenham acesso facilitado a artigos que antes eram raros.
 


O Grande desafio: formar novos leitores








Seja em livros de bolso, em livros tradicionais, no PC, no Kindle ou no Ipad, tudo indica que o grande desafio para o futuro seja atrair novos leitores. Os jovens dividem seu tempo, cada vez mais, entre diversas atividades. O aprendizado, que tinha sua base material no livro, agora pode ser adquirido através da internet, na sala de aula mesmo, por meio de recursos audiovisuais ou pesquisas rápidas. A dificuldade para além do suporte material parece ser convencer a "Geração Y" da importância da leitura. Ou, mais até, da capacidade de entretenimento dos livros. Hoje, os maiores sucessos literários, no ramo da ficção, quase sempre só se realizam por completo quando são transportados para outros meios, sobretudo audiovisuais. É o que o pesquisador Henry Jenkins, do MIT, autor do livro "Cultura da Convergência", chamou de "narrativa transmídia". As histórias, os produtos culturais, cada vez mais são criados para terem uma existência que supere as barreiras de sua mídia original. Tal perspectiva, portanto, inclui o livro como parte desta "cadeia de mídias". Mas ainda, assim, parece que só o tempo poderá mostrar o comportamente diante do objeto livro das gerações que estão sendo criadas sem tê-lo como ponto central da sistemática do conhecimento.


Henry Jenkins


Um foco de resistência? Visita à uma Biblioteca Municipal


Com o intuito de investigar como anda as formas tradicionais de busca por livros, o repórter resolveu visitar uma biblioteca conhecida [dele].

Uma rápida pesquisa de campo feita na Praça Seca, bairro da região de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, mostra como a questão dos livros e da leitura no mundo é problemática. O repórter perguntou a 11 transeuntes, todos moradores do bairro, se sabiam onde ficava a biblioteca pública. Apenas 2 souberam responder. E nenhum deles frequentava o local.

É bem verdade que a casa, vista por fora, não deixa clara sua função. Muita gente passa por ali há anos sem notar sua existência, embora haja sempre faixas convidando as pessoas para as atividades culturais que a casa promove. A sensação, portanto, é de que aquele é um espaço pouco aproveitado. Mas não é bem verdade.


Biblioteca Cecília Meireles


A Rua Dr. Bernardino é uma famosa rua do bairro, de movimento mediano de carros e pedestres. Sua fama deve-se principalmente à feira-livre que acontece nela todas as quartas-feiras. A biblioteca está instalada lá, no nº 218, desde a década de 1970. No começo, levava o nome da Profa. Dyla Silvia de Sá, que foi a idealizadora da biblioteca. Atendia às demandas dos estudantes da região, mas sobretudo realizando o serviço de caixa-estante, que consiste em levar livros à pacientes em hospitais, idosos em asilos e etc. Este serviço, inclusive, funciona até hoje: funcionários da Secretaria Municipal de Cultura se encarregam de fazer a coleta e a distribuição dos livros. Na década de 90, a biblioteca passou a ser denominada Biblioteca Municipal de Jacarepaguá, sendo rebatizada com o nome da poeta Cecília Meirelles [em tempo: a profa. Dyla passou a dar nome a um Centro Cultural inaugurado na Escola Municipal Sobral Pinto, também da região, onde lecionou por anos]. A biblioteca possui aproximadamente 15 mil livros, um acervo diversificado, mas bastante focado para as áreas infanto-juvenis.

A biblioteca é a única pública para atender a uma região (Jacarepaguá) de aproximadamente 7579,64 hectares e 100.000 habitantes. Não causa espanto, portanto, o fato de poucos conhecerem o local. Pelo contrário, espanto maior acontece quando se entra na biblioteca e se conversa com os funcionários.


 
A biblioteca por dentro

As Sras. Célia e Altamira* trabalham na biblioteca há muitos anos. Célia está lá há mais de 20. Já se aposentou, mas continua atuando como voluntária, assistindo o serviço de leitura em braille, um dos mais antigos realizados em bibliotecas municipais no Rio. Altamira é a secretaria, está na Biblioteca há quase 12 anos. Diz que sempre morou no Pechincha, outro bairro de Jacarepaguá, distante 5km da biblioteca, mas que também só a conhecera quando fora designada para trabalhar lá. A rua não é de passagem de ônibus, ou de grande trânsito, então fica ainda mais dificil para a biblioteca ser vista. Comento tal fato com as duas, mas elas lembram que grande movimento na rua também não é bom - biblioteca requer silêncio.

É inicio de dezembro e com a proximidade das férias escolares, o movimento da biblioteca diminui. Pergunto então como tem sido o movimento normal da biblioteca, se elas perceberam algum declínio nos últimos anos. Supondo uma resposta positiva, adianto se um declínio não seria devido à concorrência da internet. Mas a resposta surpreendeu o repórter. "De maneira alguma", responde Célia, "o movimento é o mesmo, continuamos de vento em popa!". [Aliás, um parêntese: as duas funcionárias são muito simpáticas. Célia, assim que viu o repórter, frequentador assíduo da biblioteca durante a adolescência, quando morava na região, pergunta se eu não queria renovar minha carteirinha...]

Altamira, a secretária, explica que o movimento não mudou e que a biblioteca continua sendo bastante procurada por alunos, sobretudo do ensino fundamental da rede municipal, que precisam fazer trabalhos escolares. Pergunto se a maioria dos leitores ainda são de jovens e se o material que procuram é em sua maioria didáticos. A biblioteca não dispõe de um sistema que possibilite extrair estatisticas, embora elas remetam relatórios mensais para a Secretaria de Cultura. Mas Altamira diz que a maioria são didáticos sim, mas que há também uma procura muito grande pelos best-sellers seriados, tais como os da saga "Crepúsculo", da escritora Stephenie Meyer. "De uns dois anos pra cá, tudo que for relacionado a vampiros tem saido muito", ela diz. Comento então que estes fenômenos são da última década, concomitantes com o boom da internet. "Sim, é verdade, creio que tudo tenha começado com "O Senhor dos Anéis". "Passou por Harry Potter, pelos Fala-sério mãe, pai, tio... (risos), as meninas adoram..." [trata-se de uma série de livros adlescentes da escritora Thalita Rebouças]. "E agora vêm os vampiros. Estes nunca param nas estantes, estão sempre emprestados", ela completa, animada.

Nenhuma das duas acredita que o gosto pelos livros vá morrer. "O livro é gostoso de pegar, é prático, não tem porque acabar", diz Altamira. Mas, ao mesmo tempo, elas se queixam de não haver um espaço com computadores para a biblioteca. "Aqui deveria haver algo tipo uma lan house. Os alunos vem aqui e sempre reclamam de não poderem pesquisar na internet". Reparo que há, bem acima do balcão, um equipamento para internet, e ao lado um computador desligado, parecendo bastante velho. "A internet é apenas para um computador que fica lá dentro, para dar conta das rotinas administrativas". "E este dai não funciona, já era velho quando nos mandaram", explica Altamira.





A infra-estrutura da casa, por sinal, anda precária. Há pouco mais de um ano, uma árvore do quintal caiu em cima da laje, por conta de um temporal, provocando a interdição dos fundos da casa. A obra de reparo está prometida pela Secretaria de Cultura desde então, mas sem previsão certa. Aparentemente, não há risco de desabamento, mas o impacto criou rachaduras que faz com que qualquer chuva infiltre na casa, pondo em risco o acervo. "Dia desses tivemos que correr para afastar as estantes, pois pingava demais", conta Altamira. Além disso, as paredes já estão amarelas, revelando a alta umidade, que é prejudicial à conservação dos livros.

Altamira conta que há um projeto de anos para mudar a biblioteca de local, cuja área já está até definida, um espaço sem uso dentro de um terreno da prefeitura, onde fica a Região Administrativa de Jacarepaguá, na Praça Seca mesmo. O repórter então recorda um "abaixo-assinado" que fora feito muitos anos atrás, exatamente com a petição de mudança. Elas confirmam, mas informam que até o momento pouca coisa caminhou.

A visita termina e a sensação que ficou é de que apesar de todos os problemas, a biblioteca resiste. E se insere como uma peça importante no quebra-cabeça que é traçar qualquer panorama ou prognóstico sobre o futuro do livro e do hábito da leitura. Se os livros ainda serão produzidos em papel, em anos próximos ou distantes, não se sabe. Mas, ao que parece, enquanto os livros atuais existirem, haverá sempre gente interessada em utilizá-los.





* As funcionárias da Biblioteca não autorizaram o reporter a tirar fotos delas e nem internas da Biblioteca, pois não havia permissão da Secretaria de Cultura para isso. As fotos acima foram de arquivo.








domingo, 4 de julho de 2010

Ainda sobre a Catacumba - Nota Triste

No último dia 19 de junho, um incêndio de grandes proporções causou grande prejuízo ao parque da catacumba. A imagem do morro em chamas assustou, lembrando muito à de um vulcão em erupção. A causa provável foi a queda de um balão. Não houve feridos nem danos aos novos equipamentos, mas sim à vegetação e certamente à boa parte da fauna. É pena que muitas pessoas ainda não tenham se sensibilizado e parado com a "brincadeira inocente" das festas de São João.

Veja abaixo um vídeo de cinegrafista amador, gravado horas depois ao inicio do incêndio:

"Ecoturismo de Aventura", na Lagoa

Em março deste ano, a prefeitura do Rio inaugurou no Parque da Catacumba, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, uma série de equipamentos para prática de “turismo de aventura”. Por meio de licitação, foi escolhida a empresaLagoa Aventuras”, que irá operar no parque os equipamentos de tirolesa, rapel, arvorismo, entre outros. A ação visa atender a dois propósitos: reanimar parques “abandonados” da cidade e promover no Rio este nicho do  turismo. 


Arquivo Pessoal
Muro de Escaladas - Parque da Catacumba




As atividades são acompanhadas por instrutores profissionais, e os preços por pessoa variam de R$ 15,00 (muro de escalada) até R$ 40,00 (rapel). Há também circuito de arvorismo especialmente para crianças. Nenhuma das atividades têm grau de dificuldade considerado difícil.


Além das atraçõesradicais”, o parque se mantém como o maior do Brasil no número de esculturas ao ar livre, possuindo rica fauna e flora remanescente de Mata Atlântica. Uma trilha leve por dentro do parque conduz a um pequeno mirante, de onde se tem vista privilegiada de toda a Lagoa.


Arquivo Pessoal
 Vista do mirante do Sacopã - Parque da Catacumba




Novas instalações também causam polêmica 

 Apesar da justificativa do projeto ser a revitalização do espaço, que é pouco conhecido pela população carioca, a instalação de equipamentos para esportes radicais e a mudança de "perfil" do parque desagradou a muitos frequentadores habituais do local. Desde o anúncio do projeto, em 2008,  houve questionamentos diversos sobre a regularidade das obras no local, que é área de preservação ambiental, e até queixas sobre possíveis remoções de esculturas famosas. O promotor Marcelo Leal, do Ministério Público Estadual, chegou a instaurar inquérito público civil para investigar o projeto. Frequentadores promoveram um abaixo-assinado pela internet contra a modificação do parque. Jayme Derenusson, autor do site do abaixo-assinado (www.parquedacatacumba.com.br), argumenta que as obras descaracterizaram o parque e denunciou que esculturas já foram quebradas e removidas por conta das novas instalações.
  
www.parquedacatacumba.com.br 
 Escultura de Sergio Camargo, supostamente quebrada pelas obras bo parque.

Nenhuma das denúncias foi adiante e, após duas licitações da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, uma para construção dos equipamentos e outra para operar o serviço, a prefeitura inaugurou as atrações.



Parque já foi favela

O Parque da Catacumba também foi lembrado em março por ter sua existência ligada à remoção de favelas, tema de grande discussão após os desabamentos decorrentes das fortes chuvas. No fim da década de 1960, durante a gestão de Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara, a população de diversas favelas da zona sul da cidade foi removida para novos conjuntos habitacionais construídos nas zonas norte e oeste (Cidade de Deus, Guaporé, Quitungo, entre outros). 


fonte: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=374131 
 Favela da Catacumba


Onde hoje existe o parque, construído na década seguinte, fora uma enorme favela, a favela da Catacumba. Foi o início de um projeto que buscava afastar da zona nobre da cidade a população mais pobre, em grande maioria migrantes nordestinos que trabalhavam em bares, residências e obras na região. Até hoje, muitos moradores daquela época visitam o parque em busca de vestígios da favela. Foi o caso de dona Maria das Dores, 58 anos, que morou no local até 1970, quando foi removida junto com sua família:
"Morávamos numa casa muito humilde, pequenininha, de madeira, eu e minha família, um total de 8 pessoas."  diz ela, que observou que ainda há na trilha do parque diversos pedaços de telhas e tijolos das casas da época. "[Eu] lembro que morávamos ao lado de uma caixa d'água, mas é muito difícil, não dá para identificar nada aqui".







Em tempo: A origem do nome "catacumba" deve-se ao fato do local ter sido usado por índios como cemitério (catacumba significa "local onde se enterram os mortos).