Já há alguns anos o assunto é pauta corrente no jornalismo, na academia e nos diversos fóruns de discussão mundo afora. Sempre que que o tema é o mercado editorial de livros ou o hábito da leitura, a pergunta que se impõe é: Qual será o futuro do livro?
capa da revista época em out/2009
O Mercado
Este ano, com o lançamento do Ipad, o tablet da Apple, somando-se a outros aparelhos do mercado, como o Kindle, da Amazon (lançado em 2009) ficou nítido que a indústria eletrônica não medirá esforços até conseguir criar uma plataforma que agrade tanto aos usuários que ainda possuem a "cultura do papel" quanto aos que já cresceram em meio a telas de LCD e Smartphones.
Ipad ou Kindle? Qual vingará?
Enquanto isso, o mercado editorial ainda "espera para ver". Nenhuma editora tradicional brasileira, por exemplo, tomou atitudes severas que sugiram mudança de foco em suas atividades. Não há grandes investimentos em e-books. O objeto principal do mercado de livros continua sendo o livro em papel. As grandes editoras temem cometer os mesmos erros do mercado fonográfico, que foi totalmente transformado com o advento da Internet. Ainda são muito tímidas as tentativas de inovação nessa área.
Este comportamento das editoras, no caso braslieiro, encontra respaldo num fato curioso, que reflete o quanto o futuro do livro navega em águas incertas. Segundo dados do Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL) e da Câmara Brasileira do Livro (CBL), a última década apresentou um crescimento bastante significativo no mercado editorial. E ainda não há indícios de um declínio próximo.
| PRODUÇÃO (1º edição e reedição) | VENDAS | |||
| Ano | Títulos Editados | Exemplares Produzidos | Exemplares Vendidos | Faturamento (R$) |
| 1990 | 22.479 | 239.392.000 | 212.206.449 | 901.503.687 |
| 1991 | 28.450 | 303.492.000 | 289.957.634 | 871.640.216 |
| 1992 | 27.561 | 189.892.128 | 159.678.277 | 803.271.282 |
| 1993 | 33.509 | 222.522.318 | 277.619.986 | 930.959.670 |
| 1994 | 38.253 | 245.986.312 | 267.004.691 | 1.261.373.858 |
| 1995 | 40.503 | 330.834.320 | 374.626.262 | 1.857.377.029 |
| 1996 | 43.315 | 376.747.137 | 389.151.085 | 1.896.211.487 |
| 1997 | 51.460 | 381.870.374 | 348.152.034 | 1.845.467.967 |
| 1998 | 49.746 | 369.186.474 | 410.334.641 | 2.083.338.907 |
| 1999 | 43.697 | 295.442.356 | 289.679.546 | 1.817.826.339 |
| 2000 | 45.111 | 329.519.650 | 334.235.160 | 2.060.386.759 |
| 2001 | 40.900 | 331.100.000 | 299.400.000 | 2.267.000.000 |
| 2002 | 39.800 | 338.700.000 | 320.600.000 | 2.181.000.000 |
| 2003 | 35.590 | 299.400.000 | 255.830.000 | 2.363.580.000 |
| 2004 | 34.858 | 320.094.027 | 288.675.136 | 2.477.031.850 |
| 2005 | 41.528 | 306.463.687 | 270.386.729 | 2.572.534.074 |
| 2006 | 46.026 | 320.636.824 | 310.374.033 | 2.880.450.427 |
| 2007 | 45.092 | 351.396.288 | 329.197.305 | 3.013.413.693 |
| 2008 | 51.129 | 340.274.195 | 333.264.519 | 3.305.957.488 |
| 2009 | 52.509 | 386.367.136 | 370.938.509 | 3.376.240.854 |
Fonte: Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL) e da Câmara Brasileira do Livro (CBL)
As livrarias, por sua vez, tem ampliado sua rede física. Alguns fenômenos hodiernos comuns a diversos outros ramos da economia em todo o mundo também tem acontecido com o mercado editorial brasileiro. A concentração de empresas é um deles. Editoras e livrarias maiores vem adquirido as menores e aumentando a sua participação no mercado. O principal exemplo é a Saraiva, que comprou a rede Siciliano, consolidando assim a maior rede de livrarias físicas do Brasil. Outro caso de relevo é a da livraria Travessa, que na última década mais que duplicou a sua quantidade de lojas, apostando na criação de ambientes que não se limitam apenas a vender livros, mas a proporcionar um espaço de lazer, com pocket shows, cafeteria, noites de autógrafos etc.
A livraria da Travessa ampliou sua rede
Da mesma forma, cresce a passos largos o comércio eletrônico. A nível mundial, basta citar o caso da Amazon, a maior livraria do mundo, que nunca teve uma existência física. A Amazon, aliás, anunciou este ano que, pela primeira vez, a venda de e-books para a sua plataforma de leitura, o Kindle, superou a venda de livros em papel. Aqui no Brasil, este número ainda está longe de ser revertido. Apesar do crescimento vertiginoso do comércio eletrônico de livros, ele ainda não ultrapassou o comércio convencional. Mas parece ser apenas questão de tempo. Ninguém contesta que a tendência é isto acontecer, só não se sabe quanto tempo levará. Enquanto isso, dados estranhos e impressionantes aparecem, confundindo ainda mais qualquer análise. A Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), por exemplo, divulgou uma pesquisa em agosto, informando que a venda porta-a-porta foi superior no último ano às vendas pela internet. O motivo, segunda a associação, seria grandes investimentos realizados nesta modalidade de venda, sobretudo nas regiões norte e nordeste. Empresas de cosméticos que utilizam largamente desta modalidade de venda também passaram a incluir livros nos seus catálogos, que são cada vez mais diversificados.
Um ponto importante a ressaltar, sobre o comércio eletrônico, é a sua capacidade de operação com a capilaridade do consumo de livros. Enquanto as livrarias físicas tem, naturalmente, limitações de espaço, o mesmo não ocorre com as lojas eletrônicas. Assim, é no meio eletrônico que se realiza o fenômeno conhecido como "cauda longa", a tendência à diversificação cada vez maior do consumo, possibilitando que as pessoas tenham acesso facilitado a artigos que antes eram raros.
Um ponto importante a ressaltar, sobre o comércio eletrônico, é a sua capacidade de operação com a capilaridade do consumo de livros. Enquanto as livrarias físicas tem, naturalmente, limitações de espaço, o mesmo não ocorre com as lojas eletrônicas. Assim, é no meio eletrônico que se realiza o fenômeno conhecido como "cauda longa", a tendência à diversificação cada vez maior do consumo, possibilitando que as pessoas tenham acesso facilitado a artigos que antes eram raros.
O Grande desafio: formar novos leitores
Seja em livros de bolso, em livros tradicionais, no PC, no Kindle ou no Ipad, tudo indica que o grande desafio para o futuro seja atrair novos leitores. Os jovens dividem seu tempo, cada vez mais, entre diversas atividades. O aprendizado, que tinha sua base material no livro, agora pode ser adquirido através da internet, na sala de aula mesmo, por meio de recursos audiovisuais ou pesquisas rápidas. A dificuldade para além do suporte material parece ser convencer a "Geração Y" da importância da leitura. Ou, mais até, da capacidade de entretenimento dos livros. Hoje, os maiores sucessos literários, no ramo da ficção, quase sempre só se realizam por completo quando são transportados para outros meios, sobretudo audiovisuais. É o que o pesquisador Henry Jenkins, do MIT, autor do livro "Cultura da Convergência", chamou de "narrativa transmídia". As histórias, os produtos culturais, cada vez mais são criados para terem uma existência que supere as barreiras de sua mídia original. Tal perspectiva, portanto, inclui o livro como parte desta "cadeia de mídias". Mas ainda, assim, parece que só o tempo poderá mostrar o comportamente diante do objeto livro das gerações que estão sendo criadas sem tê-lo como ponto central da sistemática do conhecimento.
Henry Jenkins
Um foco de resistência? Visita à uma Biblioteca Municipal
Com o intuito de investigar como anda as formas tradicionais de busca por livros, o repórter resolveu visitar uma biblioteca conhecida [dele].
Uma rápida pesquisa de campo feita na Praça Seca, bairro da região de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, mostra como a questão dos livros e da leitura no mundo é problemática. O repórter perguntou a 11 transeuntes, todos moradores do bairro, se sabiam onde ficava a biblioteca pública. Apenas 2 souberam responder. E nenhum deles frequentava o local.
Uma rápida pesquisa de campo feita na Praça Seca, bairro da região de Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, mostra como a questão dos livros e da leitura no mundo é problemática. O repórter perguntou a 11 transeuntes, todos moradores do bairro, se sabiam onde ficava a biblioteca pública. Apenas 2 souberam responder. E nenhum deles frequentava o local.
É bem verdade que a casa, vista por fora, não deixa clara sua função. Muita gente passa por ali há anos sem notar sua existência, embora haja sempre faixas convidando as pessoas para as atividades culturais que a casa promove. A sensação, portanto, é de que aquele é um espaço pouco aproveitado. Mas não é bem verdade.
Biblioteca Cecília Meireles
A Rua Dr. Bernardino é uma famosa rua do bairro, de movimento mediano de carros e pedestres. Sua fama deve-se principalmente à feira-livre que acontece nela todas as quartas-feiras. A biblioteca está instalada lá, no nº 218, desde a década de 1970. No começo, levava o nome da Profa. Dyla Silvia de Sá, que foi a idealizadora da biblioteca. Atendia às demandas dos estudantes da região, mas sobretudo realizando o serviço de caixa-estante, que consiste em levar livros à pacientes em hospitais, idosos em asilos e etc. Este serviço, inclusive, funciona até hoje: funcionários da Secretaria Municipal de Cultura se encarregam de fazer a coleta e a distribuição dos livros. Na década de 90, a biblioteca passou a ser denominada Biblioteca Municipal de Jacarepaguá, sendo rebatizada com o nome da poeta Cecília Meirelles [em tempo: a profa. Dyla passou a dar nome a um Centro Cultural inaugurado na Escola Municipal Sobral Pinto, também da região, onde lecionou por anos]. A biblioteca possui aproximadamente 15 mil livros, um acervo diversificado, mas bastante focado para as áreas infanto-juvenis.
A biblioteca é a única pública para atender a uma região (Jacarepaguá) de aproximadamente 7579,64 hectares e 100.000 habitantes. Não causa espanto, portanto, o fato de poucos conhecerem o local. Pelo contrário, espanto maior acontece quando se entra na biblioteca e se conversa com os funcionários.
A biblioteca por dentro
As Sras. Célia e Altamira* trabalham na biblioteca há muitos anos. Célia está lá há mais de 20. Já se aposentou, mas continua atuando como voluntária, assistindo o serviço de leitura em braille, um dos mais antigos realizados em bibliotecas municipais no Rio. Altamira é a secretaria, está na Biblioteca há quase 12 anos. Diz que sempre morou no Pechincha, outro bairro de Jacarepaguá, distante 5km da biblioteca, mas que também só a conhecera quando fora designada para trabalhar lá. A rua não é de passagem de ônibus, ou de grande trânsito, então fica ainda mais dificil para a biblioteca ser vista. Comento tal fato com as duas, mas elas lembram que grande movimento na rua também não é bom - biblioteca requer silêncio.
É inicio de dezembro e com a proximidade das férias escolares, o movimento da biblioteca diminui. Pergunto então como tem sido o movimento normal da biblioteca, se elas perceberam algum declínio nos últimos anos. Supondo uma resposta positiva, adianto se um declínio não seria devido à concorrência da internet. Mas a resposta surpreendeu o repórter. "De maneira alguma", responde Célia, "o movimento é o mesmo, continuamos de vento em popa!". [Aliás, um parêntese: as duas funcionárias são muito simpáticas. Célia, assim que viu o repórter, frequentador assíduo da biblioteca durante a adolescência, quando morava na região, pergunta se eu não queria renovar minha carteirinha...]
Altamira, a secretária, explica que o movimento não mudou e que a biblioteca continua sendo bastante procurada por alunos, sobretudo do ensino fundamental da rede municipal, que precisam fazer trabalhos escolares. Pergunto se a maioria dos leitores ainda são de jovens e se o material que procuram é em sua maioria didáticos. A biblioteca não dispõe de um sistema que possibilite extrair estatisticas, embora elas remetam relatórios mensais para a Secretaria de Cultura. Mas Altamira diz que a maioria são didáticos sim, mas que há também uma procura muito grande pelos best-sellers seriados, tais como os da saga "Crepúsculo", da escritora Stephenie Meyer. "De uns dois anos pra cá, tudo que for relacionado a vampiros tem saido muito", ela diz. Comento então que estes fenômenos são da última década, concomitantes com o boom da internet. "Sim, é verdade, creio que tudo tenha começado com "O Senhor dos Anéis". "Passou por Harry Potter, pelos Fala-sério mãe, pai, tio... (risos), as meninas adoram..." [trata-se de uma série de livros adlescentes da escritora Thalita Rebouças]. "E agora vêm os vampiros. Estes nunca param nas estantes, estão sempre emprestados", ela completa, animada.
Nenhuma das duas acredita que o gosto pelos livros vá morrer. "O livro é gostoso de pegar, é prático, não tem porque acabar", diz Altamira. Mas, ao mesmo tempo, elas se queixam de não haver um espaço com computadores para a biblioteca. "Aqui deveria haver algo tipo uma lan house. Os alunos vem aqui e sempre reclamam de não poderem pesquisar na internet". Reparo que há, bem acima do balcão, um equipamento para internet, e ao lado um computador desligado, parecendo bastante velho. "A internet é apenas para um computador que fica lá dentro, para dar conta das rotinas administrativas". "E este dai não funciona, já era velho quando nos mandaram", explica Altamira.
A infra-estrutura da casa, por sinal, anda precária. Há pouco mais de um ano, uma árvore do quintal caiu em cima da laje, por conta de um temporal, provocando a interdição dos fundos da casa. A obra de reparo está prometida pela Secretaria de Cultura desde então, mas sem previsão certa. Aparentemente, não há risco de desabamento, mas o impacto criou rachaduras que faz com que qualquer chuva infiltre na casa, pondo em risco o acervo. "Dia desses tivemos que correr para afastar as estantes, pois pingava demais", conta Altamira. Além disso, as paredes já estão amarelas, revelando a alta umidade, que é prejudicial à conservação dos livros.
Altamira conta que há um projeto de anos para mudar a biblioteca de local, cuja área já está até definida, um espaço sem uso dentro de um terreno da prefeitura, onde fica a Região Administrativa de Jacarepaguá, na Praça Seca mesmo. O repórter então recorda um "abaixo-assinado" que fora feito muitos anos atrás, exatamente com a petição de mudança. Elas confirmam, mas informam que até o momento pouca coisa caminhou.
* As funcionárias da Biblioteca não autorizaram o reporter a tirar fotos delas e nem internas da Biblioteca, pois não havia permissão da Secretaria de Cultura para isso. As fotos acima foram de arquivo.








